| sábado, 8 de setembro de 2007 |
| O homem é um animal. Isso é uma definição, não uma qualificação. Entretanto, termos e conceitos como homem, animal, definição, qualificação assim como o verbo ser são palavras, enfim, coisas que se complicam quando o homem finge pensar, principalmente quando finge pensar a sério. Há uma insegurança vinda não se sabe de onde, que faz as palavras ficarem com duplos sentidos, e as pessoas acabam ofendidas, sem que tenha sido essa a intenção de quem pronuncia as máximas definitórias. Como a taturana, o sapo, a tartaruga assim como o porco e muitos outros seres também são animais, o homem não se conforma de ser definido meramente como um animal, e sempre teme acabar confundido com esses seres que, na imensa ignorância humana, acredita estarem muito aquém de suas infindas potencialidades e superioridades, que naturalmente tem como parâmetro única e exclusivamente sua própria escala de valor. Assim, logo quer qualificar esse animal ? homem, via de regra, desqualificando os demais. Portanto, acrescenta ao termo animal um termo um tanto confuso que denomina racional, uma espécie de superioridade quase divina, que o deixa acima de todas as demais espécies existentes, acreditando se distinguir de todos os outros animais que seriam tão somente animais irracionais. Jamais o homem aceitou o fato de ser um bicho como outro qualquer. Isso é claro com relação a sua auto-estima particular, porque é público e notório que todos os bichos são diferentes entre si, sem que isso qualifique ou desqualifique nenhum deles, seja para si próprios, seja com relação aos demais, com exceção dos inseguros humanos, que perde muito do seu tempo fazendo comparações com os demais, já que nenhum bicho é igual a outro qualquer e, muito invejoso, teme ser considerado inferior. Qualificar e desqualificar são um problema bem humano e via de regra os desqualifica, revela uma profunda insegurança psíquica com relação a sua auto-estima: em geral, ao tentar encontrar o valor das coisas, acaba encontrando apenas o seu preço, e tudo que tem apenas preço, é coisa barata. Isso tem várias explicações, mas nenhuma delas parece satisfatória, nem pode ser aceita pela unanimidade da humanidade. Em particular porque além dos animais humanos se considerarem racionais, sendo a racionalidade, segundo crenças muito antigas, uma espécie de superioridade com relação aos demais animais, cada um dos seres humanos se considera superior aos demais seres humanos, ou mais racional que os demais. Isso pode parecer astucioso, porém é pouco inteligente. O fato é que enquanto todos os animais parecem ter funções naturais, o homem parece ter apenas enormes presunções. Essas presunções fazem-no acreditar que tem mais do que função natural, mas um destino superior, que alguns alucinados acreditam estar escrito nas estrelas, outros no interior de animais dissecados em rituais macabros, ou em pedras, rochas, conchas, ou ainda em pessoas que escutaram ou escutam vozes que atribuem a divindades, e a crença e a tradição afirmam serem certas, porque estão escritas em livros antigos ou recentes. Entretanto, o grande equívoco ocorreu há muitos séculos atrás, quando alguns seres humanos começaram a acreditar e difundir que era gente, e que gente é sinônimo de gentil, fidalgo, cavalheiro, agradável, aprazível, gracioso, delicado, elegante, educado, enfim, aquilo que muitos poucos seres humanos conseguem ser por alguns poucos instantes em algumas raras situações e ocasiões. Que o humano contém alguma positividade imanente a espécie, que ele é um ser que tende a bondade e benfeitorias, enfim, que o homem tende a um ideal idílico e fantasioso construído por sacerdotes, poetas e filósofos através dos séculos, e que tais qualificações se encontre potencialmente em todos os homens, é uma fantasia antiga que, mais do que falsa, é absolutamente irreal; o mais incrível é existir pessoas que ainda acreditam e defendem essas idiossincrasias. Ele é o que se educa para ser. Enfim, o problema está em crermos que o verbo ser se aplica aos seres humanos, que o homem é isso ou aquilo, quando de fato, como inaugurador de artifícios e senhor do seu destino, ele pode acordar como um corneador e ir dormir ao fim do dia como um corneado. O verdadeiro verbo que se aplica ao ser humano é o verbo estar. Não somos felizes ou infelizes, bons ou maus, mas sim podemos estar contentes ou tristonhos, realizando coisas boas ou más. Somos criaturas do momento que é algo que está sempre mudando, seja por nossa ação ou por nossa reação, mas através de nossa participação ainda que em grande parte inconsciente.
Roberto- Roberto
|0:42 comentários [0]. enviar por texto por e-mail
|
| sábado, 8 de setembro de 2007 |
Processo Número: 0737/05 Quem pede: José de Gregório PintoContra quem: Lojas Insinuante Ltda, Siemens Indústria Eletrônica S.A e Starcell Ementa: UTILIZAÇÃO ADEQUADA DE APARELHO CELULAR. DEFEITO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DO FABRICANTE E DO FORNECEDOR. Sentença: Vou direto ao assunto. O marceneiro José de Gregório Pinto, certamente pensando em facilitar o contato com sua clientela, rendeu-se à propaganda da Loja Insinuante de Coité e comprou um telefone celular, em 19 de abril de 2005, por suados cento e setenta e quatro reais. Leigo no assunto, é certo que não fez opção por fabricante. Escolheu pelo mais barato ou, quem sabe até, pelo mais bonitinho: o tal Siemens A52. Uma beleza!Com certeza foi difícil domar os dedos grossos e calejados de marceneiro com a sensibilidade e recursos do seu Siemens A52, mas o certo é que utilizou o aparelhinho até o mês de junho do corrente ano e, possivelmente, contratou muitos serviços. Uma maravilha!Para sua surpresa, diferente das boas ferramentas que utiliza em seu ofício, em 21 de junho, o aparelho deixou de funcionar. Que tristeza: seu novo instrumento de trabalho só durou dois meses. E olha que foi adquirido legalmente nas Lojas Insinuante e fabricado pela poderosa Siemens..... Não é coisa de segunda-mão, não! Consertado, dias depois não prestou mais... Não se faz mais conserto como antigamente! Primeiro tentou fazer um acordo, mas não quiseram os contrários, pedindo que o caso fosse ao Juiz de Direito.Caixinha de papelão na mão, indicando que se tratava de um telefone celular, entrou seu Gregório na sala de audiência e apresentou o aparelho ao Juiz: novinho, novinho e não funciona. De fato, o Juiz observou o aparelho e viu que não tinha um arranhão. Seu José Gregório, marceneiro que é, fabrica e conserta de tudo que é móvel. A Starcell, assistência técnica especializada e indicada pela Insinuante, para surpresa sua, respondeu que o caso não era com ela e que se tratava de "placa oxidada na região do teclado, próximo ao conector decarga e microprocessador" . Seu Gregório: o que é isto? Quem garante? O próprio que diz o defeito, diz que não tem conserto....Para aumentar sua angústia, a Siemens disse que seu caso não tinha solução neste Juizado por motivo da "incompetência material absoluta do Juizado Especial Cível - Necessidade de prova técnica." Seu Gregório: o que é isto? Ou o telefone funciona ou não funciona! Basta apertar o botão de ligar. Não acendeu, não funciona. Prá que prova técnica melhor?Disse mais a Siemens: "o vício causado por oxidação decorre do mau uso do produto". Seu Gregório: ora, o telefone é novinho e foi usado apenas para falar. Para outros usos,tenho outras ferramentas. Como pode um telefone comprado na Insinuante apresentar defeito sem solução depois de dois meses de uso? Certamente não foi usado material de primeira. Um artesão sabe bem disso.O que também não pode entender um marceneiro é como pode a Siemens contratar um escritório de advocacia de São Paulo, por pouco dinheiro não foi, para dizer ao Juiz do Juizado de Coité, no interior da Bahia, que não vai pagar um telefone que custou cento e setenta e quatro reais? É, quem pode, pode! O advogado gastou dez folhas de papel de boa qualidade para que o Juiz dissesse que o caso não era do Juizado ou que a culpa não era de seu cliente! Botando tudo na conta, com certeza gastou muito mais que cento e setenta e quatro para dizer que não pagava cento e setenta e quatro reais! Que absurdo!A loja Insinuante, uma das maiores e mais famosas da Bahia, também apresentou escrito de advogado, gastando sete folhas de papel, dizendo que o caso não era com ela por motivo de "legitimatio ad causam", também por motivo do "vício redibitório e da ultrapassagem do lapso temporal de 30 dias" e que o pobre do seu Gregório não fez prova e então "allegatio et non probatio quasi non allegatio". E agora seu Gregório? Doutor Juiz, disse Seu Gregório, a minha prova é o telefone que passo às suas mãos! Comprei, paguei, usei poucos dias, está novinho e não funciona mais! Pode ligar o aparelho que não acende nada! Aliás, Doutor, não quero mais saber de telefone celular, quero apenas meu dinheiro de volta e pronto! Diz a Lei que no Juizado não precisa advogado para causas como esta. Não entende seu Gregório porque tanta confusão e tanto palavreado difícil por causa de um celular de cento e setenta e quatro reais, se às vezes a própria Insinuante faz propaganda do tipo: "leve dois e pague um!" Não se importou muito seu Gregório com a situação: um marceneiro não dá valor ao que não entende! Se não teve solução na amizade, Justiça é para isso mesmo! Está certo Seu Gregório: O Juizado Especial Cível serve exatamente para resolver problemas como o seu. Não é o caso de prova técnica: o telefone foi apresentado ainda na caixa, sem um pequeno arranhão e não funciona. Isto é o bastante! Também não pode dizer que Seu Gregório não tomou a providência correta, pois procurou a loja e encaminhou o telefone à assistência técnica. Alegou e provou! Além de tudo, não fizeram prova de que o telefone funciona ou de que Seu Gregório tivesse usado o aparelho como ferramenta de sua marcenaria. Se é feito para falar, tem que falar! Pois é Seu Gregório, o senhor tem razão e a Justiça vai mandar, como de fato está mandando, a Loja Insinuante lhe devolver o dinheiro com juros legais e correção monetária, pois não cumpriu com sua obrigação de bom vendedor. Também, Seu Gregório, para que o Senhor não se desanime com as facilidades dos tempos modernos, continue falando com seus clientes e porque sofreu tantos dissabores com seu celular, a Justiça vai mandar, como de fato está mandando, que a fábrica Siemens lhe entregue, no prazo de 10 dias, outro aparelho igualzinho ao seu. Novo e funcionando! Se não cumprirem com a ordem do Juiz, vão pagar uma multa de cem reais por dia! Por fim, Seu Gregório, a Justiça vai dizer à assistência técnica, como de fato está dizendo, que seu papel é consertar com competência os aparelhos que apresentarem defeito e que, por enquanto, não lhe deve nada. À Justiça ninguém vai pagar nada. Sua obrigação é fazer Justiça! A Secretaria vai mandar uma cópia para todos. Como não temos Jornal próprio para publicar, mande pelo correio ou por Oficial de Justiça.Se alguém não ficou satisfeito e quiser recorrer, fique ciente que agora a Justiça vai cobrar. Depois de tudo cumprido, pode a Secretaria guardar bem guardado o processo! Por último, Seu Gregório, os Doutores advogados vão dizer que o Juiz decidiu "extra petita", quer dizer, mais do que o Senhor pediu e também que a decisão não preenche os requisitos legais. Não se incomode. Na verdade, para ser mais justa, deveria também condenar na indenização pelo dano moral, quer dizer, a vergonha que o senhor sentiu, e no lucro cessante, quer dizer, pagar o que o Senhor deixou de ganhar. No mais, é uma sentença para ser lida e entendida por um marceneiro. Conceição do Coité, Bahia, Gerivaldo Alves Neiva, Juiz de Direito
Roberto- Roberto
|0:38 comentários [0]. enviar por texto por e-mail
|
| sábado, 8 de setembro de 2007 |
O homem é um animal. Isso é uma definição, não uma qualificação. Entretanto, termos e conceitos como homem, animal, definição, qualificação assim como o verbo ser são palavras, enfim, coisas que se complicam quando o homem finge pensar, principalmente quando finge pensar a sério. Há uma insegurança vinda não se sabe de onde, que faz as palavras ficarem com duplos sentidos, e as pessoas acabam ofendidas, sem que tenha sido essa a intenção de quem pronuncia as máximas definitórias. Como a taturana, o sapo, a tartaruga assim como o porco e muitos outros seres também são animais, o homem não se conforma de ser definido meramente como um animal, e sempre teme acabar confundido com esses seres que, na imensa ignorância humana, acredita estarem muito aquém de suas infindas potencialidades e superioridades, que naturalmente tem como parâmetro única e exclusivamente sua própria escala de valor. Assim, logo quer qualificar esse animal ? homem, via de regra, desqualificando os demais. Portanto, acrescenta ao termo animal um termo um tanto confuso que denomina racional, uma espécie de superioridade quase divina, que o deixa acima de todas as demais espécies existentes, acreditando se distinguir de todos os outros animais que seriam tão somente animais irracionais. Jamais o homem aceitou o fato de ser um bicho como outro qualquer. Isso é claro com relação a sua auto-estima particular, porque é público e notório que todos os bichos são diferentes entre si, sem que isso qualifique ou desqualifique nenhum deles, seja para si próprios, seja com relação aos demais, com exceção dos inseguros humanos, que perde muito do seu tempo fazendo comparações com os demais, já que nenhum bicho é igual a outro qualquer e, muito invejoso, teme ser considerado inferior. Qualificar e desqualificar são um problema bem humano e via de regra os desqualifica, revela uma profunda insegurança psíquica com relação a sua auto-estima: em geral, ao tentar encontrar o valor das coisas, acaba encontrando apenas o seu preço, e tudo que tem apenas preço, é coisa barata. Isso tem várias explicações, mas nenhuma delas parece satisfatória, nem pode ser aceita pela unanimidade da humanidade. Em particular porque além dos animais humanos se considerarem racionais, sendo a racionalidade, segundo crenças muito antigas, uma espécie de superioridade com relação aos demais animais, cada um dos seres humanos se considera superior aos demais seres humanos, ou mais racional que os demais. Isso pode parecer astucioso, porém é pouco inteligente. O fato é que enquanto todos os animais parecem ter funções naturais, o homem parece ter apenas enormes presunções. Essas presunções fazem-no acreditar que tem mais do que função natural, mas um destino superior, que alguns alucinados acreditam estar escrito nas estrelas, outros no interior de animais dissecados em rituais macabros, ou em pedras, rochas, conchas, ou ainda em pessoas que escutaram ou escutam vozes que atribuem a divindades, e a crença e a tradição afirmam serem certas, porque estão escritas em livros antigos ou recentes. Entretanto, o grande equívoco ocorreu há muitos séculos atrás, quando alguns seres humanos começaram a acreditar e difundir que era gente, e que gente é sinônimo de gentil, fidalgo, cavalheiro, agradável, aprazível, gracioso, delicado, elegante, educado, enfim, aquilo que muitos poucos seres humanos conseguem ser por alguns poucos instantes em algumas raras situações e ocasiões. Que o humano contém alguma positividade imanente a espécie, que ele é um ser que tende a bondade e benfeitorias, enfim, que o homem tende a um ideal idílico e fantasioso construído por sacerdotes, poetas e filósofos através dos séculos, e que tais qualificações se encontre potencialmente em todos os homens, é uma fantasia antiga que, mais do que falsa, é absolutamente irreal; o mais incrível é existir pessoas que ainda acreditam e defendem essas idiossincrasias. Enfim, o problema está em crermos que o verbo ser se aplica aos seres humanos, que o homem é isso ou aquilo, quando de fato, como inaugurador de artifícios e senhor do seu destino, ele pode acordar como um corneador e ir dormir ao fim do dia como um corneado. O verdadeiro verbo que se aplica ao ser humano é o verbo estar. Não somos felizes ou infelizes, bons ou maus, mas sim podemos estar contentes ou tristonhos, realizando coisas boas ou más. Somos criaturas do momento que é algo que está sempre mudando, seja por nossa ação ou por nossa reação, mas através de nossa participação ainda que em grande parte inconsciente.
Roberto- Roberto
|0:23 comentários [0]. enviar por texto por e-mail
|
|
 |
 |
 |
|